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sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Sobre uma HQ reflexiva




No mês de abril de 2019, recebi com grande estima o convite do quadrinista, Gabriel Jardim, para escrever o prefácio de sua nova obra, a HQ de ficção científica "Lanço Celestino". Abaixo compartilho o resultado, o qual espero ter correspondido ao convite e a mensagem edificante existente na história. Boa leitura a todos!



É isto o homem?

O título deste prefácio advém de uma relevante obra homônima, do escritor italiano, Primo Levi, que concede uma grandiosa reflexão em relação a condição humana ante a opressão, o medo, a incerteza, a morte, a perda da própria identidade e o processo de desumanização dos que como ele, eram prisioneiros no campo de concentração de Auschwitz,  durante a Segunda Guerra Mundial.
Após 74 anos, livres de guerras mundiais, muitos de nós continuamos reféns dos ditos representantes populares, que agem publicamente ou silenciosamente desvirtuando a democracia, definindo nossos destinos de forma negativa e impossibilitando o triunfo aos menos favorecidos, que lutam bravamente para romper as trincheiras inimigas para assim, garantirem sua sobrevivência, mas infelizmente, muitos deles em sua jornada são submetidos vagarosamente a um processo de desesperança em relação a si e aos que o cercam.
E se por um lado, existe a presença de indivíduos que munidos de uma visão distorcida do bem estar coletivo utilizam métodos maquiavélicos para manipularem a sociedade ao seu bel-prazer, por outro, somos corroídos vagarosamente em nossas jornadas pelo condicionamento de que a ideologia capitalista é totalmente benéfica quando nos concede benefícios e supre nossas necessidades imediatistas.
Assim, fazendo-nos esquecer que somos induzidos à competição, ao individualismo e ao estímulo do consumismo, que imediatamente nos conduz à satisfação individual para que sejamos entorpecidos por uma suposta e relativa felicidade calcada no materialismo. Deste modo, acabamos perdendo nossa percepção e responsabilidade em relação ao coletivo e em como podemos modificar positivamente as histórias daqueles que nos cercam.
É neste paralelo entre o desalento e o propósito coletivista, que reside na cooperação com os demais, que se encontra a obra do quadrinista, Gabriel Jardim. Na história somos apresentados ao jovem Joalysson, UBER espacial, oriundo do planeta Sertão, e sua audaciosa e quase monossilábica piloto Qeï, que ao serem  contratados pela capitã Hass partem em uma  missão em que a recompensa a ser paga é mais importante do que seu propósito.
Entretanto, a trama que renderia apenas uma grande aventura irá nos apresentar uma frenética e reflexiva jornada sobre as angústias, o genocídio, a ambição, a luta pelo poder e a desvalorização humana, guiando o jovem sertoniano e sua piloto a se confrontarem com seus dilemas éticos e morais.
Em tempos de inúmeras incertezas, a obra “Lanço Celestino” apresenta-se como um vaga-lume em meio às trevas, que ciclicamente circundam nossa existência, e nos concede esperança ante a insistente natureza destrutiva do ser humano.

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