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segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Sobre o matrimônio



Em fevereiro de 2018, tive a honra de receber com muito grado o convite para ser padrinho de casamento de um casal que tenho alta estima. Posteriormente, entreguei a eles uma recordação acompanhado com um texto, repleto de indagações relacionadas aos que almejam ter uma vida em comum.
E, nesta ocasião, partilho o mesmo texto com o propósito de que venha a conduzir ao equilíbrio e do que considero, uma visão harmoniosa sobre a prática do amor. 

 O amor e suas indagações 

Quando criança li um livro que me causou um impacto sem procedentes, e assim a obra “O pássaro encantado”, de Rubem Alves, despertou em mim o quão torturante pode ser uma das mais belas intenções...a proteção. No livro, uma menina recebe a visita regular de um lindo pássaro que ao pousar em sua janela canta lindamente. Daquelas visitas, nasce uma grande amizade e por fim suas preocupações e reflexões típicas de quem tem nutre amor pelo outro. No caso da jovem, sua aflição era motivada pela incerteza do não retorno da bela ave, e mais ainda, o medo de que se alguém lhe fizesse mal. Diante destas angústias, ela resolve produzir uma bela gaiola com intuito de livrá-la destes perigos, e assim transformá-la em sua moradia. Entretanto, as boas intenções possuem seu lado e consequências sombrias, e assim em decorrência de ser mantido em cativeiro tudo que lhe fazia belo e atraente é subtraído pela tristeza...suas penas caem, seu canto é silenciado. Tudo que o pássaro lhe concebia é consumido, pois toda sua beleza era proveniente da liberdade, pelo ato e capacidade de ir e voltar movido por um dos mais belos sentimentos...a saudade de reencontrar quem nos cativa. Ao entender tal ação, ela o liberta e assim entende que o verdadeiro amor consiste em quando entendemos que é necessário conceder espaço e que ambos possam crescer. Ou como em sábias palavras imortalizou o grande pensador, Gibran, em sua obra ‘O profeta”: 

 “Nascestes juntos, e juntos ficareis para sempre. 
Estareis juntos quando as asas brancas da morte acabarem com os vossos dias. 
Ah, estareis juntos mesmo na memória silenciosa de Deus. 
Mas que haja espaços na vossa união e que os ventos celestiais possam dançar entre vós. 
Amai-vos um ao outro, mas não façais do amor uma prisão; 
Deixai antes que seja um mar ondulante entre as margens das vossas almas.
Enchei a taça um do outro, mas não bebais de uma só taça. 
Parti o vosso pão ao meio, mas não comais do mesmo pão. 
Cantai e dançai juntos, mas deixai que cada um de vós fique sozinho. 
Como as cordas de uma lira estão sozinhas embora vibrem ao som da mesma música. 
Entregai os vossos corações, mas não ao cuidado um do outro. 
Pois só a mão da Vida pode conter os vossos corações. 
E ficai juntos mas não demasiado juntos: 
Pois os pilares do templo estão afastados, e o carvalho e o cipreste não crescem à sombra um do outro.” 

Para viver um grande amor é necessário resiliência, respeito, quebras de paradigmas, reinventar-se, ter conflitos, mas nunca confrontos. Entretanto, se os tiver, que a calmaria venha a se estabelecer e acima de tudo, conservar boas lembranças que inspiraram a jornada em comum.
Pois o tempo é uma ilha de edição muitas vezes cruel, a qual nos faz ressaltar os dissabores da vida ao invés dos pequenos e significativos momentos de felicidade.
Portanto, cartas e recados escritos um para o outro, ao longo do tempo devem ser lidos e relidos, da mesma forma, as fotos impressas, daquelas que víamos quando criança devem preencher nossas estantes e as paredes de nossos quartos além, de estarem ao lado de nossas camas para incessantemente nos recordarmos de quem somos, do que fizemos e do sonho em comum que foi estabelecido por ambos. 

Sejam felizes!

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