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sexta-feira, 27 de setembro de 2019

A irracionalidade humana em meio a manifestação artística



Ao realizarmos uma reflexão a respeito da trajetória humana, é impossível não observarmos os inúmeros resultados e avanços obtidos nos campos da ciência e tecnologia, entretanto, quando compreende o campo humano, somos surpreendidos pela persistente presença secular da intolerância e do preconceito.

Suas existências comprometem o coletivismo, quando assustadoramente indivíduos movidos pela conquista e manutenção do poder, agem nas esferas da política, da economia, da religião e da cultura desvirtuando-as e subvertendo-as por meio de ações e discursos que exaltam a moral, os valores, a educação e a família, mas que no entanto, apenas restringem o diálogo e o entendimento, praticando censura, perpetuando o ódio e a opressão aos menos favorecidos, trazendo a tona o nosso lado mais obscuro, quando  declarações propagam-se em determinados grupos que pactuam com visões distorcidas, comprometendo assim a harmonia coletiva e sua relação com a democracia.

E neste paralelo entre o desalento e a manipulação das massas, encontra-se a resistência de homens e mulheres que erguem seus punhos cerrados contra estas táticas nefastas, com o propósito de conceder um olhar mais amplo para a existência do diálogo, para assim, alcançarmos uma sociedade mais justa, humana e igualitária. E em cenários como este, é que a arte apresenta-se para exercer seu protagonismo transformador, nos concedendo a percepção em relação ao coletivo, proporcionado a quebra de paradigmas e o combate as trevas que ciclicamente encontram-se atreladas a nossa existência, todavia, para alcançar estes objetivos ela irá entrar em rota de colisão com indivíduos que encontram-se hermeticamente em suas cavernas pessoais, afrontando-a com aterrorizante euforia.

Entre vários exemplos a serem relatados, pode-se elencar o episódio ocorrido na XIX Bienal Internacional do Livro do Rio Janeiro, o qual iniciou-se quando um desinformado comprador adquiriu o exemplar de número 66 da Coleção Oficial de Graphics Novels da editora Salvat, que compila a história “Jovens Vingadores - A cruzada das crianças”, a edição apresenta as aventuras de um grupo de adolescentes que lutam bravamente contra inimigos que desejam escravizar e destruir a humanidade, porém, a polêmica foi desencadeada, em virtude de que em determinado momento da trama, ocorre o primeiro beijo do casal Wiccano e Hulking, ambos de mesmo gênero.

Este momento de afeto entre os dois personagens desagradou o comprador, que divulgou por meio das redes sociais seu descontentamento com o teor homoafetivo encontrado na HQ e sucessivamente ao perigo existente na história, que poderia influenciar crianças e jovens à prática sexual com pessoas do mesmo gênero. A denúncia, por sua vez, instigou outros internautas a manifestarem seu desprazer com o teor citado e convergiu para proporções alarmantes, quando o prefeito da cidade, o Sr. Marcelo Crivella, por meio de seu perfil no Twitter, declarou que: "Pessoal, precisamos proteger as nossas crianças. Por isso, determinamos que os organizadores da Bienal recolhessem os livros com conteúdos impróprios para menores. Não é correto que elas tenham acesso precoce a assuntos que não estão de acordo com suas idades".

Por sua vez, o pronunciamento do prefeito, que poderia resultar em uma cruzada aos Jovens Vingadores, resultou a princípio em um ato de desobediência da organização da Bienal, que se recusou a recolher o título, e por fim, essa polêmica ainda impulsionou as vendas da HQ, tendo em vista que em 39 minutos todos os exemplares existentes no evento foram vendidos.

Ao realizamos a análise do ocorrido, nota-se a presença excessiva de controle do estado e da censura, unidas a favor da “moral” e “bons costumes”, tentando vendar nossos olhos para a realidade que nos cerca, bem como, abafar algo que é comum ao nosso dia a dia. É intrigante quando menciona-se proteger nossas crianças de algo inapropriado, e no entanto, constata-se que inúmeras vezes podemos testemunhar relatos de crianças e adolescentes que por meio da aprovação de seus pais, tiveram contato com a violência em filmes e séries de tv, inadequados às suas idades.

Sendo assim, coloca-se em  evidência o fato de como a violência é mais bem aceita e pouco combatida por muitos de nossa sociedade, que não percebem a intensidade do dano que ela pode incidir, ao influenciar negativamente o processo de construção do indivíduo e ainda comprometer a percepção em relação às injustiças praticadas contra minorias.

Por fim, constata-se que para muitos, o gênero de super-heróis é destinado unicamente ao público infantil, com tramas poucos elaboradas e histórias que imperam o maniqueísmo e a aventura, esquecendo que os quadrinhos são uma manifestação artística que tem como objetivo não apenas o entretenimento, mas apresentar um reflexo de nossa sociedade e trazer a tona em suas páginas, assuntos pertinentes e necessários ao debate.

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